Eternamente Menina
Serei eternamente menina, nas minhas memórias, nos meus amores, nos meus sorrisos... Esta é uma página, que se pretende não ser apenas de memórias de amores perdidos... mas sim, a lembrança de que o amor nunca morrerá no meu coração de menina...
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São estes os caminhos que percorro diariamente, que fortalecem a minha alma e acalmam o meu espírito.

(Fotografia pessoal daqui)
Imagem de autor desconhecido
na forma como incendeias os sentidos.
Não, meu amor, também és raiva
onde espojo meu corpo em suor.
Não, meu amor, também és água
a dessedentar minha língua
seca de silêncio e de vómito.
Não, meu amor. Não és apenas carne,
nem apenas caule, nem apenas fruto,
mas sobretudo a seiva
de que se alimenta a minha ânsia de fuga.
Não, meu amor, também és mulher,
a parte que não existe em mim, homem!
“Não, meu amor… Nem todo o corpo é carne”.
Às vezes é uma viagem
ao interior uterino da criação
ao Imo da Vida!
Pintura de Jacopo Tintoretto
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura
Tu és doce atractivo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.
Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n’alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.
Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.
Amor ou desfalece, ou pára, ou corre,
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.
(Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage)
Imagem de Ernst Schütz
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota…
Crepite, em derredor, o mar de Agosto…
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!
Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito…
Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
David Mourão-Ferreira in “Infinito Pessoal"
Pintura de Edward Henry Corbould (daqui)
Escondo-me no abrigo de uma árvore,
qualquer,
enquanto a alma hiberna,
sozinha.
No ensombro, escrevo memórias espaças de um voo de mocho enamorado pela lua,
menina.
Caiu a noite, não há histórias nem sonhos…
Há uma transparência cristalina que aguarda o instante, de voltar a ter cor,
sem cinzentos-neblina.
Dorme, a alma,
talvez cansada,
talvez dorida,
dorme,
sossegada,
abraçada na árvore da vida…
(Poema do Almaro)

Imagem Jane Maclean
Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.
Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.
Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol, outro corpo.
Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.
Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.
(Poema de Eugénio de Andrade)
Pintura de Lauro Corado
É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe murmurou - é ela!
Eu a vi… minha fada aérea e pura –
A minha lavadeira na janela!
Dessas águas-furtadas onde eu moro
Eu a vejo estendendo no telhado
Os vestidos de chita, as saias brancas;
Eu a vejo e suspiro enamorado!
Esta noite eu ousei mais atrevido
Nas telhas que estalavam nos meus passos
Ir espiar seu venturoso sono,
Vê-la mais bela de Morfeu nos braços!
Como dormia! Que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado…
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!
Afastei a janela, entrei medroso…
Palpitava-lhe o seio adormecido…
Fui beijá-la… roubei do seio dela
Um bilhete que estava ali metido…
Oh! de certo… (pensei) é doce página
Onde a alma derramou gentis amores;
São versos dela… que amanhã de certo
Ela me enviará cheios de flores…
Tremi de febre!
Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
Eu beijei-a a tremer de devaneio…
É ela! É ela! - repeti tremendo;
Mas cantou nesse instante uma coruja…
Abri cioso a página secreta…
Oh! Meu Deus! Era um rol de roupa suja!
Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas
Se achou-a assim mais bela – eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camizinhas!
É ela! É ela! meu amor, minh’alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela…
É ela! É ela! - murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou - é ela!
(Poema de Álvares de Azevedo)
Imagem de Isabel Filipe
Ao dizer que te amo é
como se as portas da vida se
abrissem, e uma luz nascida de dentro
do desejo de ti me trouxesse
até mim. Mas ao dizer
que te amo, são as portas
da noite que se fecham, e é
contigo que espero a última
madrugada, onde entre
mim e ti
nenhumas portas existam.
(Poema de Nuno Júdice)
Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.
Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.
Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.
Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.
(Manuel Alegre, in Coisa Amar - 1976)
Mestre Bertram, “Painel do Altar de Grabow: Natividade” (1383)
O mar estava perto,
Fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves,
só alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto
puríssimo, doirado.
Poema de Eugénio de Andrade
E na espuma do Mar se perdem as palavras…

Pintura de William Merritt Chase
Pequenas coisas
Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.
Poema de Albano Martins
“Conhecer alguém aqui e ali que pensa e sente como nós e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado.”

Pintura de Yoshitaka Amano
A Maria Mamede deu-me uma tarefa difícil – que escrevesse sete coisas sobre mim – e, apesar de raramente recusar um desafio, este é daqueles que me custa sempre fazer: falar de mim ou seja, escrever sobre mim.
Não tenho muito jeito para falar directamente de mim. Gosto de falar dos meus sentimentos, dos meus sonhos (que ainda os tenho, apesar de tudo…). Gosto de falar dos meus filhos (e do orgulho que sinto neles). Gosto de falar dos meus animais (e da paixão que me liga a eles). Do mar… do “meu” mar e de poesia.
Diria que sou uma pessoa simples, alegre, comunicativa, sincera, afável, lutadora, teimosa, sensível, sorridente e, acima de tudo, apaixonada pela Vida, que detesta: a falsidade e a hipocrisia nas pessoas; quem vive de aparências; que não me olhem nos olhos quando falam comigo; não me sentir bem num lugar e de pessoas frias.
Que sou capaz de me sacrificar pelos meus Filhos, pela Família, pelos meus Amigos, pelos meus animais.
Que o respeito, amizade e solidariedade, andam de mãos dadas e que sou capaz de dar tudo isso, sem nada exigir em troca, mas também sou uma “fera”, na defesa daquilo em que acredito. Sou capaz de dar o braço a torcer, quando sou injusta com alguém, mas não abdico das minhas convicções. E tenho um grande defeito, sou demasiado sensível e firo-me com muita facilidade, o que me traz alguns problemas …mas também perdoo com relativa facilidade e sou incapaz de guardar rancor a alguém.
Resumindo o tal número sete: 1- sou de uma alegria espontânea e sincera; 2 - lutadora que nem uma leoa; 3 - teimosa que nem uma mula; 4 - sensível até dizer basta; 5 - apaixonada pela Vida; 6 - sou amiga do meu amigo e do meu inimigo também; 7 – Sou solidária, sem nunca me ter arrependido, mesmo que me tenham traído a confiança.
Posto isto, passo a “batata quente” a:
Avó Zaida
Carlos Tavares
Manuel do Montado
Piedade Araújo Sol
Sulista
Vítor Cintra

Pintura de Isabel Magalhães
A alma e o corpo unidos,
Num último e derradeiro esforço de criação;
Quando eu partir…
Como se um outro ser nascesse
De uma crisália prestes a morrer sobre um muro estéril,
E sem que o milagre se abrisse
As janelas da vida. . .
Então pertencer-me-ei.
Na minha solidão, as minhas lágrimas
Hão-de ter o gosto dos horizontes sonhados na adolescência,
E eu serei o senhor da minha própria liberdade.
Nada ficará no lugar que eu ocupei.
O último adeus virá daquelas mãos abertas
Que hão-de abençoar um mundo renegado
No silêncio de uma noite em que um navio
Me levará para sempre.
Mas ali
Hei-de habitar no coração de certos que me amaram;
Ali hei-de ser eu como eles próprios me sonharam;
Irremediavelmente…
Para sempre.
(Poema de Ruy Cinatti)
Diz-me
que cada palavra trocada
que cada beijo molhado
valem mais
que números frios
em catálogos gravados
de uma vida que se perdeu…
Diz-me
que para lá deste aposento
gaivotas esvoaçam ao vento
de momentos constantes
perdidos em emoções
e permanentes ilusões
que não acabam
em leilão…
Diz-me
que as nossas mãos se unirão
mais uma vez em nossos corpos sedentos
daquela magia que nos juntou…
Diz-me
que afinal
nada terminou…
Diz-me…
Poema deixado num comentário...aqui
Imagem de Drica Del Nero
Os olhos do homem extasiaram-se
Na muda contemplação da Terra.
E na sua alma de poeta
Nos seus olhos de artista
No seu gosto de esteta
O sonho se definiu
Tomou forma
Cresceu.
Aureolado de esperança
Tirou do alforge das suas ilusões
Um punhado de sementes
E lançou-as à terra.
E através do prisma da sua imaginação
As sementes germinaram
E numa explosão de cor
Floriram:
Aqui
As rosas brancas da amizade;
Além
O amarelo do jasmim da dedicação;
Acolá
O azul das glicínias da ternura;
Mais além
A mancha forte, rubra, dos cravos
Na significação emblemática do Amor.
E evolando-se da terra
O odor agridoce dos desejos..
Então,
Miríades de borboletas
Descendo
Na sua graça alada
Da poalha doirada do Sol
Vieram
Policromas e belas,
Poisar levemente nas flores
Levando
De corola em corola,
O pólen da fecundação.
E,
Quando em êxtase se perdia
Na amorosa contemplação
Da beleza que o cercava
O homem foi
Subitamente,
Cruamente,
Acordado pela Razão.
Na aridez ressequida da realidade
Viu
Que a terra fecunda em que lançara
Esperançoso, as suas esperanças
Onde depositara,
Cheio de ilusão,
As suas ilusões
A terra promissora
Que tratara com a ternura do seu querer,
Que sulcara com o arado dos seus desejos,
Que fertilizara com o húmus do seu amor,
Essa terra
Onde enraizara as suas esperanças
Lhe era proibida.
E o HOMEM,
De novo reduzido à sua condição de homem
Partiu
Cabisbaixo
E triste
Levando no seu alforge esburacado
O vazio do seu desalento
(Poema de Carlos Ferreira in Garatujando )

A generosidade da Pink uma das mais fiéis leitoras deste blogue, desde o seu início, desafiou-me para uma das coisas mais difíceis, mas de que mais gosto: falar dos livros que leio.
Fui sempre uma leitora (e compradora) compulsiva de livros. Quer seja poesia ou literatura. Falar de livros, não será para mim, um tema de circunstância, porque afinal, muita da literatura que li, marcou a minha personalidade e a minha escolha de filosofia de vida…
Nos meus tempos de menina, na minha fase romântica, (confesso que ainda sou) chorei quando li “Jane Eyre”, de Charlotte Bronte, ou mesmo “O Monte dos Vendavais”, de sua irmã Emily Bronte, ou quando passava noites inteiras acordada lendo obras de (retiradas às escondidas, da biblioteca do meu Pai) Camões, Florbela Espanca, Afonso Lopes Vieira, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Sebastião da Gama, Miguel Torga, João de Deus, Antero de Quental, Natália Correia, Eríco Veríssimo, Marguerite Duras, António Botto, Teixeira de Pascoaes, Aquilino Ribeiro, Júlio Dinis, Alexandre Herculano, Walter Scott, Thomas Moore, Aldous Huxley, Honoré de Balzac, Jorge Amado, Charles Dickens, Camilo Pessanha ou um Eça de Queirós…
Houve uma altura que “estudei” Homero, Ovídio, Virgílio, mas depressa passei para Cervantes e ler o seu “D. Quixote de La Mancha” foi qualquer coisa que me marcou até hoje. Depois vieram leituras empolgantes, como “Anna Karenina” ou “Guerra e Paz” de Leon Tolstói, ou “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck, que me levou a desejar ler ainda mais e aí apareceram autores, como Dostoiévski, Gorki, Gogol, Tolstoi, Tchekhov.
“ O Primeiro Amor” de Isaak Babel, deixou-me com dúvidas terríveis, mas depressa as esqueci a ler a fantástica obra de Anatoly Kuznetsov “Babi Yar” que me levou aos horrores do holocausto…
Já numa outra fase, apaixonei-me por Friedrich Nietzsche e dele retirei um pouco da sua “loucura”.
Numa viagem de vinte e dois dias por mar, li os quatro volumes de “O Don Tranquilo”, de Mikahail Chólokhov e depois interessei-me pela obra poética de Mikhail Lermontov de que aqui deixo um excerto:
Longo colar de pérolas na estepe azul,
exiladas como eu, correndo rumo ao sul,
longe do caro norte que, como eu, deixais!
Que vos impele assim? Uma ordem do Destino?
Oculto mal secreto? Ou mal que se conhece?
Acaso carregais o crime que envilece?
Ou só de amigos vis o torpe desatino?
Ali não: fugis cansadas da maninha terra,
e estranhas a paixões e ao sofrimento estranhas
eternas pervagais as frígidas entranhas.
E não sabeis, sem pátria, a dor que o exílio encerra”
(“Nuvens”, de Mikhail Iurievitch Lermontov, in Poesia de 26 Séculos, Ed.Asa
(pág.246)
Chega de falar dos livros que já li. Passemos aos que actualmente estou a ler, ou antes, a reler…exactamente nas páginas onde vou…
“Vimos de nada e vamos para onde.
Perguntamos, e nada nos responde,
A verdade e a mentira são irmãs:
O que é que o evidente nos esconde?
…(excerto)
(in “Canções de Beber” de Fernando Pessoa), Assírio&Alvim
(pág.84)

Capa do livro
“…Quem observasse o viver de Camilo assim parco na mesa só ampliada quando a ela se assentavam estranhos, como singelo no adorno da casa, rejeitava a suspeita de ostentação naquele grande espírito.”
(in Camilo” visto por Freitas Fortuna, Edição da “Casa de Camilo”
“Digo que não
Ao medo
Que me apavora;
E juro ao coração
Que virá cedo
A calma que demora.”
…(excerto)
(in “Orfeu Rebelde” de Miguel Torga) Edição Particular, Coimbra
(pág. 44)
“…Quanto maior é a cidade mais anonimamente se vive nela. Parecendo que não, isso repousa os nervos. É evidente que há parecenças em todas as partes do mundo, mas é diferente constatar parecenças do que viver a permanência….”
(In Banana SPLIT” de Rui de Brito), Pub. Europa-América
(pág.88)
“...Ver-se-ia então a noite instalar-se no mundo, as montanhas cobrirem-se de florestas e as florestas povoarem-se de feras.
Quanto aos costumes e maneiras dos povos, uma carapaça de gelo os cobriria…”
(in “Salvo-conduto” de Boris Pasternak), Bibliotex Editor
(pág. 45)

Retrato de Eugénio de Andrade por Dórdio Gomes
“Acorda-me
um rumor de ave.
Talvez seja a tarde
a querer voar.
A levantar do chão
qualquer coisa que vive,
e é como um perdão
que não tive
Talvez nada.
Ou só um olhar
que na tarde fechada
é ave.
Mas não pode voar.
(in “30 Poemas”, de Eugénio de Andrade) Fundação Eugénio de Andrade
(pág.15)